Formação em Psicologia

Alexander Luria, neurologista (entre outras formações), escreveu um tratado de psicologia (1970) em que logo nas primeiras páginas afirma: "A psicologia só pode desenvolver-se em estrita ligação com outras ciências, ... a biologia é a primeira ... a segunda ... é a fisiologia".

Por outro lado é consenso se lembrar de Sigmund Freude de suas considerações em neurologia e fisiologia no "Psicologia para Neurologistas" ( de 1895. Na primeira edição póstuma, foi chamado pelo coordenador da edição inglesa de "Projeto para uma Psicologia Científica", ficando depois conhecido como "O Projeto").

Não se trata hoje então de se pensar nas correntes de métodos de descoberta e mudança pessoal, obtidos com o auxilio de um psicoterapeuta ou terapeuta, como métodos modernos x métodos clássicos, mas sim em termos de como entendemos o funcionamento do cérebro e como este conhecimento permite intervenções que conduzem a mudanças eficazes.

Evidentemente é valido verificar que uma metodologia de intervenção (de qualquer escola de psicoterapia) é "correta" uma vez que justificada pelas neurociências, mas isto é apenas mais uma pesquisa válida. Se existem processos de intervenção mais eficientes e seguros eles devem ser usados independentemente de serem novos ou antigos com justificação moderna.

O que evidentemente não é mais válido é o uso de uma tecnologia obsoleta embasada em qualquer justificativa que deixe em segundo plano a realidade como pode ser compreendida hoje. Desta forma é estarrecedor perceber que a psicologia em seus cursos de formação continua com suas propostas relativamente pouco alteradas a décadas (mais no Brasil que em outros países).

O uso de modernas técnicas de intervenção (que um número significativo de psicólogos faz ou perece) é possível por treinamento em associações ou grupos não acadêmicos que proliferam. Na psicologia, mais que em outras áreas, a academia não consegue incorporar avanços resultantes da pesquisa e da prática de forma satisfatória e isto é no mínimo pouco recomendável para não dizer perigoso.

Movidos por uma premência de mudança (o que além da característica dos dias atuais é próprio do cérebro: busca de satisfação imediata), pessoas em número cada vez maior se dirigem aos agentes de mudança não certificados academicamente e se submetem a processos relatados como eficientes e "diferentes" das abordagens clássicas, bastando que se estabeleça um mínimo de sentimento de empatia. Acorreriam em massa aos consultórios de psiquiatria se o estigma da loucura e o preço das consultas e dos medicamentos não fossem tão significativos.

Embora acreditando que isto aumenta o risco de atividade de má fé (o que por outro lado um diploma também não consegue evitar), quero pontuar que isto revela uma descrença cada vez maior no psicólogo de técnicas clássicas ou no analista. O simples bombardeio a que o indivíduo é submetido por artigos de jornal, dezenas de vídeos e revistas vendidos em bancas de jornal e em programas de TV minam de forma cada vez mais vívida a proposta e atuação de psicólogos e analistas.

Citando Michael Gazanniga: "a psicologia está morta ou em situação de profunda indefinição".

Acredito que é passada a hora da reforma e atualização dos currículos dos cursos de psicologia, com o custo de se ter uma profissão com atividade exercida por pessoas com formação não acadêmica (e então não controláveis), referenciadas como agentes de mudança pessoal cada vez mais ocupando espaços que. por miopia e sectarismo, o ensino formal não sabe ocupar.

Ou será que, nesta área, este é o caminho natural e não questionável?